• Sérgio Luiz Potrich

Opinião: Enterrados vivos!


O peculiar descaso de nós Brasileiros para com aqueles que viveram em nosso Berço esplêndido em tempos remotos, cuidando com a sua alma das nossas planícies por séculos afins fica mais evidente a cada dia que passa.

Soterrados pelo andar da história, pelo aculturamento egoístico do homem “civilizado” que prega a degradação moral, o consumo irresponsável, o valor da propriedade sobre a vida, assim hoje encontra-se grande parte de uma etnia marginalizada, mas que ainda resiste durante séculos de genocídio “politicamente correto”, silencioso e com ares de política pública responsável. 

Falo do nosso povo nativo, mais conhecido como; índios brasileiros!

É bom lembrar que no dia 22 de Abril de 1500 Pedro Álvares Cabral chegou ao Paraíso onde os habitantes viviam “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”, esse mesmo território desconhecido e pacífico, seria chamado posteriormente de República Federativa do Brasil na qual eu e você vivemos hoje. Nele viviam cerca de 5 milhões de índios e sua imensa maioria eram de origem Tupi ou Guarani cuidavam da terra e essa lhes fornecia uma vida repleta de riquezas; frutas, raízes medicinais, pássaros, peixes dentre outros recursos naturais, logicamente cada tribo com os seus costumes alguns excêntricos outros não, mas enfim, viviam em paz e longe da depravação que logo surgiria ou melhor implantariam em suas culturas sob o pretexto do “Progresso” econômico. Os "homens Brancos" (colonizadores), assim como os Madeireiros da nossa atual Amazônia não perderam seu precioso tempo, afinal tal esquadra visava achar terras para explorá-las selvagemente, com o intuito de sustentar alguns países da Europa e pagar grande parte de suas dívidas externa com a Inglaterra, que por incrível que pareça tinha a maioria absoluta de seus habitantes na miséria e uma minoria, a realeza, com todas as mordomias e luxos possíveis sustentado pelos pobres de lá e pelos explorados daqui.

Destruía-se culturas, modos de vida, florestas, recursos naturais no Novo Mundo com o intuito de sustentar diferenças e misérias no Velho Mundo, já este mais perverso e sagaz. Utilizavam de espelhos, colares, machados entre outros objetos para comprar índios que naquela época à “troco de um real” mostravam as nossas riquezas como o ouro para que os Portugueses extraíssem, e após realizar a extração e de carregar os seus belos navios levassem toda essa riqueza para a Europa. Chamavam isso de Escambo. Mas calma aí, pois vai piorar! Com o declínio desse ciclo e a ascensão do Cultivo da Cana de Açúcar no século 16 advinha?!

Os colonizadores passaram a tirar as terras dos Índios através de guerras, mortes, epidemias escravizando-os, estuprando as mulheres sejam elas crianças ou não, enfim passaram a se apossar dessas terras que eram o sustento, a vida e a base de uma linguagem de sentidos e fundamento de uma cultura secular.

Acuados pela força começaram a correr mata à dentro, deixando tudo para trás e abrindo espaço para o cultivo da cana de açúcar, as famosas capitanias hereditárias surgiram, e um novo modelo econômico-administrativo o tanto quão perverso como o passado surgiu e perdurou com mais força por um bom tempo; o da tráfico negreiro ou melhor da escravidão dos agora “índios africanos”. Enfim, isso já é outra história! De lá pra cá.... não mudou muita coisa para os nativos brasileiros, o Paraíso em que viviam seus antepassados passou a ser chamado de o “País do Futebol”, o “Celeiro do mundo” , “ O país da Copa”, “O país da Corrupção” ou até mesmo o “País da Constituição Cidadã”. 

Na questão do tratamento humanizado e garantido Constitucionalmente para os índios, continuamos e preferimos massacrá-los novamente, mas agora com a desculpa do desenvolvimento econômico do País. Afinal não é uma “leizinha” que vai mudar um costume ou melhor uma desculpa secular de extermínio de um povo e sua cultura.

Como exemplo, no ano de 1999 cerca de 555 jovens índios suicidaram em uma reserva no Mato grosso do Sul, esses viviam em terras cercados por pistoleiros, ou fazendeiros que agiam com extrema violência e detinham o poder político e econômico naquela região e por sinal ainda tem.

Para se ter uma ideia a média de assassinatos no Iraque na época era de 93 á cada 100 mil habitantes, naquela região era de 145. Ninguém noticiava, a força nacional não foi acionada, operações da polícia federal não foram feitas restava o cheiro da carne podre se decompondo nas tribos e o cantar dos grilos no final da tarde. O silêncio era absoluto!

Hoje em 2019 esse número é infinitamente maior não só nas tribos indígenas mas entre os próprios “civilizados” que apesar de todo crescimento tecnológico e avanço na medicina que ocasiona uma melhora na qualidade de vida estão perdendo a vontade de viver o que confirma isso é a taxa alarmante de suicídio, que hoje é um problema de saúde pública de índios, ricos, pobres, crianças, adultos e velhos. Ou seja, um modelo que sempre pregou a melhoria na qualidade de vida e nos padrões econômicos como símbolo da felicidade para destruir outras culturas nativas que viviam de modo mais rudimentar e simples, hoje afoga em seu próprio sangue, afinal o ser humano hoje não é um fim, mas sim o meio para se obter propriedades e riquezas materiais e tão somente isso.

No ano citado (1999) muitos índios de idade entre 12 e 24 anos ou se enforcavam ou se envenenavam, pressionados pelo confinamento em reservas cada vez menores em que não se podia obter fontes próprias de comidas para o sustento, muitos se alimentavam apenas uma vez por dia, uma contraposição a fartura das épocas coloniais e pré-coloniais. 

O alcoolismo, a prostituição, a mendicância, a pobreza, a fome, o desamparo (todos esses fatores originários da interferência do homem “civilizado”) era o que restava e resta para esse povo!

A covardia nossa dizimou seus antepassados, os “desaculturou” aniquilando seus velhos e saudáveis hábitos, e, encheu as tribos de epidemias, de bêbados, diabéticos, suicidas e retirou o que é de maior importância para um ser humano seja ele índio, americano ou austríaco que é a sua autoestima. 

Neste cenário caótico um índio de modo simples, mas cheio de sabedoria desabafou; "(...) Nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos".

É bom lembrar que apesar dos pesares; Sim...Temos bons exemplos, cito aqui os irmãos Villas Boas que aprendizes e adeptos da cultura rondoniana deixaram o seu legado contribuindo para o Progresso Brasileiro, mas de modo a respeitar a integridade física e cultura do índio, ao implantar o Parque indígena do Xingu sonhavam em preservar os mesmos de qualquer interferência externa garantindo e respeitando a grandeza do seu povo e garantindo o crescimento econômico brasileiro através da famosa marcha para o oeste. 

Celso Anselmo Bicudo Paula Souza Junior é advogado, assessor jurídico do Município de Nova Xavantina/MT, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal pela Faculdade Damásio de Jesus/SP e escreverá toda semana para essa coluna.


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